Thursday, April 10, 2008

Quarto de Espelhos

“Parecia um filme a preto e branco. Ao fundo, no cimo do monte, avistava-se uma grande mansão vitoriana. Uma cena fantasmagórica. Há muito que não se via uma única alma rondando a enorme casa, até hoje.
Uma vela acesa no segundo andar. Avistam-se sombras, não, é apenas uma pessoa. Como é que nunca se deu por ela? Parece que tem estado ali desde sempre…”


Dentro da casa reina a escuridão. Acendi uma vela, no quarto dos espelhos do segundo andar, mas tenho medo que alguém me veja. Este quarto está forrado a espelhos. Vejo o meu reflexo, sombras, a minha alma, o que me destrói e o que me constrói.

Vou-me arrastando a passos largos pelo quarto, sentindo-me só pela primeira vez desde que aqui estou. Fecho os olhos e penso em toda a minha vida, tento recordar-me dos momentos mais felizes.

E, ainda com os olhos fechados, sinto-me a partir um dos espelhos. Desfez-se em cacos. Apanho um deles e é lá que vejo o meu reflexo agora. Mas não é isto que sou. Pensando bem, não me sinto só. Não sinto rigorosamente nada. Estou oca. Preciso desesperadamente de sentir algo.

Encosto o pedaço de espelho partido ao pescoço. Não, não me parece que seja capaz. Encosto-o ao braço e abro os olhos. Olho para o chão, está pintado de vermelho.

E é então que me começo a sentir viva pela primeira vez em muito tempo, viva como o vermelho do sangue quente que me escorre pelas mãos.


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