Monday, April 28, 2008

Meditações sobre uma rosa meditativa

Na paisagem desértica, o único elemento vivo, natural, observável é uma rosa. Mas não uma rosa qualquer… esta rosa paira do ar, e eu, que a observo daqui, deste mísero pontinho onde me encontro, sinto a sua solidão. Ali sozinha, sem outras iguais a si. E o curioso é que eu também sinto o mesmo.

Solidão. Estamos ambos sozinhos no meio do deserto, eu e a rosa. A cidade está longe. Observo o deserto em toda a sua extensão, com atenção redobrada. Medito sobre onde estou, porque ali me encontro. E, qual não é o meu espanto quando reparo em duas pessoas, lá longe, tal e qual como eu, perdidas no centro do deserto meditando sobre o mesmo.

E a rosa continua ali, pairando sobre as nossas cabeças, levitando sobre as nossas meditações…

Thursday, April 24, 2008

Sorrisos

“E percebi que os sorrisos servem para uma data de coisas, como por exemplo para tapar buracos quando o mar das palavras se transforma em deserto.”


(Maria Teresa Maia Gonzalez, A Lua de Joana)


Sorrisos… sim é verdade, servem para muito. Quando a alma está vazia e nós roçamos na beira do sorriso para a encher, quando a alma está cheia e queremos mantê-la assim. O sorriso pode ser o melhor “tapa buracos” que existe.

Não me lembro da última vez que esbocei um sorriso, apenas por não ter nada a dizer. Mas, muitas vezes, sem querer, os lábios curvam-se e formam aquilo a que chamamos de “sorriso amarelo”, sem transmitir o que vai na alma, o que realmente sentimos. É um sorriso falso, mas a sua utilização torna-se tentadora quando as palavras se acabam e a alma se esvazia. E, lentamente, nós vamo-nos esvaziando com ela…

O Tempo

“Contar os dias pelos dedos e encontrar uma mão cheia.”

(José Saramago, Cadernos de Lanzarote)



É consideravelmente interessante observar a passagem do tempo. Só começa a ser preocupante quando é já doença, preocupação com a idade, e, às páginas tantas, uma pessoa pensa “já percorri mais de metade deste meu caminho e não fiz nem uma pequena parte das coisas que gostaria de ter feito”. E pensa com razão, pois o tempo passa demasiado depressa e muitas vezes nós nem damos por ele. E, portanto, o essencial agora será preservar memórias, boas ou más, e fazer confissões acerca de coisas que nunca nos passaria pela cabeça dizer. Mas, hoje dizemo-las sem pensar nas consequências ou ter receio do que possa vir a acontecer.

A impulsividade deveria estar na ordem do dia, tal e qual como se apresenta. Já diz o ditado “quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré”. Ora, bem vistas as coisas, cabe a cada um de nós escolher entre ser uma lagartixa ou um jacaré. E, para aqueles que se intrigam se vale a pena, eu respondo com Pessoa: “se vale a pena? Tudo vale a pena, se a alma não é pequena!”.


Só nós, bem lá nos recônditos da nossa mente, da nossa imaginação, podemos saber o que sentimos. Levantar-me da cama todos os dias, tentar sentir que a vida vale a pena, são tudo momentos desta pequena rotina a que posso chamar: A MINHA VIDA. E ,todos os dias ao passar na rua penso para comigo se esta gente que por aqui passeia repara neste ser que deambula no mundo sem alma.

E é nestas alturas que me apetece perguntar:


“Valerá a pena olhar duas vezes para as pessoas SEM ALMA?”

Memórias

“A memória é um espelho velho, com falhas no estanho e sombras paradas.”

(José Saramago, Cadernos de Lanzarote)

Memórias… Para que precisamos delas afinal? Recordar os bons e os maus momentos, na presença daqueles que mais amamos… é o mais lógico. No entanto, a memória tem o poder de ser selectamente selectiva. Brinca com a mente, prega partidas. Mas é nos recônditos da nossa mente que encontramos aquelas memórias que nos enriquecem a alma e o espírito.

Muitas vezes, as memórias que tenho são apenas nevoeiro. Uma pequena névoa mental, que atrofia o sistema dos sentimentos. Afinal, o que é a memória senão o sentimento puro? As memórias que tenho mais facilidade em armazenar são as piores. Aquelas que quero esquecer. Muitas noites passadas sem dormir e um lençol vermelho tornado vermelho pelo sangue que me corre nas veias. São estas as minhas piores memórias, as partidas que a minha mente prega.

Por vezes queremos esquecer, por vezes queremos recordar. Mas, a maior partida que a memória nos pode pregar é assombrar-nos para o resto da vida. Nunca deixar esquecer as coisas que queremos deixar passar. Paranóia, dizem uns. Doença, dizem os outros. Pensando bem as pessoas que, como eu, se deixam levar pela memória não estão paranóicas e muito menos doentes. Sentem demasiado, exageram, e por vezes dramatizam. E agora pergunto: É DOENÇA LEVAR TÃO A SÉRIO OS SENTIMENTOS?

Amor vs. Desilusão

Afinal, para que precisamos do amor? Traz-nos as maiores desilusões, faz-nos sofrer. A verdade é que o amor nos faz falta. Pelo menos, àqueles que possuem um coração e pretendem fazer algum uso dele. Mas continuo sem entender, para quê?

O amor é bem capaz de nos estragar a vida. Conheço muito boa gente que seria capaz de deitar a vida para o lixo por amor. Este energúmeno, o amor, leva-nos acreditar em tudo. A criar uma fantasia tão imensa e tão intensa, que ao fim de um tempo pensamos que é real. E isso estraga-nos a vida. Dá-nos cabo do espírito, arruína-nos a alma. E continuo sem perceber qual a sua finalidade, se só causa estragos…

É claro que há pessoas que se transformam com o amor. Acendem um fogo novo, descobrem a Novidade, ficam com um brilhozinho especial nos olhos. O pior é quando, de um momento para o outro, tudo isso desaparece…

O mundo desaba. Cai-nos em cima, literalmente. Depois disto o que vem? Vem o drama, o choro, a depressão. Ficamos a chafurdar na auto-comiseração. E para quê? Ou, melhor, porquê? Por causa do amor. Única e exclusivamente o amor.

É por isso que agora começo a perceber, que, apesar de ser das coisas mais belas do mundo, há muitos que não a têm. E porquê? Porque o mundo assim o obriga.

Todos acabamos por nos entregar, mais cedo ou mais tarde. E tudo nos pode parecer o mais fabuloso possível quando amamos e somos amados. Quando descobrimos “o outro em nós e nós no outro”, como outrora alguém disse.

No entanto, quando tudo se acaba, sentimos que nos entregamos ao lixo. Não tenho maneira melhor de o descrever. Passado algum tempo, depois de entregarmos de todo a nossa vida a alguém em quem confiamos, somos deitados à rua como seres desprovidos de qualquer sentimento.

E em alturas como esta, cada um deve interrogar-se se a vida vale a pena. Ou então, interrogar-se se, no meio do seu altruísmo haverá espaço para algum egocentrismo. Isto porque uma pessoa não pode dar tudo da sua alma, da sua mente, do seu espírito a outros, sem parar um pouco para pensar em si mesma.

Um pouco de egocentrismo faz bem a todos. Se estivermos sempre e constantemente preocupados com o bem-estar dos outros, sentimo-nos seres sem alma, pois não paramos nem um minuto para pensar em nós.

E é assim o amor. Cruel ciência do mais impuro coração…

Friday, April 18, 2008

Ciências do Coração

O amor é belo, maravilhoso

Nasce a qualquer hora

É perfeitamente pomposo

Esquece-se do que foi outrora

Desaparece de repente

E, quando menos se espera

Volta e assombra a mente.



Será assim tão importante?

Talvez sim, talvez não.



O certo é que é constante

Ciência do coração.

Cartas de Amor/Amizade...

Uma lágrima. Não, mais. Chorar é o que me acontece, por não poder estar perto de ti, por não poder sentir nem um pouco da tua alma junto de mim. Podes estar perto e longe ao mesmo tempo, é bem possível. Estar a pouca distância de mim fisicamente, e no entanto… a tua mente encontra-se totalmente ausente. Conheces-me tão bem como eu a ti, ou provavelmente eu conheço-te pior. Não temos tempo nem para dizer “bom dia”. Há meses que não te vejo, há anos que sinto a tua falta. Mas a verdade é que estás sempre na minha mente…

Muitas vezes sinto que já cresceste comigo. Que sempre fizeste parte de mim. Sempre me ensinaste a ver o lado brilhante e radioso das coisas, mesmo naqueles dias tão… cinzentos, em que nem me apetece abrir os olhos. Contigo aprendi o que era a diversão, como era ser, digamos “criança”. Fizemos as coisas mais estapafúrdias que se pode imaginar. Durante algum tempo, éramos… não sei. Amigos? Talvez. Pelo menos era o que parecia. E ainda hoje é assim.

Sempre me perdoaste por todas as asneiras, sempre me soubeste aceitar tal e qual como me apresento. Fizeste-me chorar, fizeste-me rir. Também me fizeste ficar extremamente impaciente e deprimida, é verdade. Mas sempre reconheceste as minhas qualidades e os meus defeitos. Soubeste sempre aceitar e pedir desculpas, mesmo que o orgulho te impedisse de o fazer.

Sim, és orgulhoso. Não te posso dizer que não, pois estaria a mentir. E sendo a minha vida um rol de mentiras, não me quero tornar mentirosa. Portanto, sim, és orgulhoso. Mas humilde ao mesmo tempo. Sincero. E um amigo extraordinário.

Se sinto que posso contar contigo? Por favor, não me obrigues a responder. Estamos afastados há demasiado tempo e eu sinto demasiado a tua falta para se dizer que sim, que ainda posso contar contigo. Já tu, tens a minha palavra (e sabes que eu sou sincera), podes contar sempre comigo. Para tudo o que precisares.

E são estas as cartas. Cartas de amor/amizade de alguém que chora, mas chora por ter a felicidade de um dia ter conhecido alguém como tu.
Para LP

A Parada dos Corações Partidos


Um pesadelo. É um verdadeiro pesadelo. Acordar e ver que o dia está cinzento, e chove. O que condiz com o meu estado de espírito. Processa-se então uma espécie de ritual, em que um pouco de música e velas são o ideal para trazer cor ao dia. Mas a parada já começou, e está tudo escuro como breu.

Memórias antigas (velhas inimigas) assaltam-me a mente e não me querem largar. Sinto um aperto no coração, é como se se fosse partir. Não, não quero chorar. E o dia está triste, é verdade…

E é então que, num sobressalto, a mente se veste de preto e se junta à parada. Por enquanto a mente, apenas. A alma ainda resiste. Mas o meu coração parte-se e, enquanto choro, a alma une-se á parada e que tudo está escuro.

Filas e filas de saudade, um rol de mentiras, flores murchas e verdades que nunca ninguém disse. Todos se dirigem para o mesmo local, um buraco negro algures por aí.

E a parada continua, todos os dias na mente de alguém. Eu fui só mais uma vítima…

Thursday, April 10, 2008

A Vida


Quem sou eu afinal? A poetisa das noites mais duras e mais frias, aquela que ninguém quer e sobre quem ninguém fala… Os meus textos são apenas meros reflexos de um espelho a que gosto de chamar a vida. Reflectidos em palavras que podem ser tão belas, ou tão horrendas como a vida em si.

Afinal, o que faço aqui? Nem eu sei. Espero por alguém que leia um dia algo que escrevi e pense “bolas, esta sabe escrever”. Não, não pretendo fama em nenhuma das suas acepções. Sou apenas aquela que estima os outros mas que ninguém estima, que se sente maltratada pelo mundo e por aqueles que a rodeiam, sem nunca perder aquela curiosidade que faz de mim uma pessoa esquisita mas fantástica.

Sim, fantástica. Não sou egocêntrica, mas neste contexto, a palavra apenas me parece adequada. Amo a vida em todas as suas formas. Já passei por muito, é verdade. Mas nunca perdi a vontade nem a curiosidade de aprender este mundo que me rodeia. Aprender o mundo, aprender as pessoas. Aprender a vida.

Viver pode ser a coisa mais maravilhosa do mundo. Basta aprender a fazê-lo. E, primeiro que o façamos, caímos e voltamos a levantar-nos. Aprendemos a cair. Apenas depois aprendemos a vida, aprendemos a viver. Todos nós procuramos desesperadamente uma maneira de nos livrarmos das quedas. Mas terá essa maneira que procuramos de passar necessariamente pelo caminho mais difícil? Teremos de forçar a Morte para o conseguirmos? Talvez desafiar a vida? Não sei. Passei por todas elas, e talvez ainda não tenha acabado. Mas, finalmente, começo a perceber que sentido dar à minha vida, a esta viagem que amo.

Se tudo aquilo por que passei até agora não me levaram a forçar a Morte (bem, talvez quase), apenas me fizeram mais forte. E, cada dia que passa por mim a uma velocidade alucinante sinto mais um pouco dessa força. Chama-se atravessar a estrada da vida. Do caminho mais difícil para o caminho mais fácil. Há um tempo atrás, conhecia-me a mim mesma do lado errado da estrada, do caminho mais difícil. Agora que me sinto mais forte, agora que começo a sentir verdadeiramente o que é a vida, vou a meio da estrada. Em direcção ao caminho mais fácil…




Quarto de Espelhos

“Parecia um filme a preto e branco. Ao fundo, no cimo do monte, avistava-se uma grande mansão vitoriana. Uma cena fantasmagórica. Há muito que não se via uma única alma rondando a enorme casa, até hoje.
Uma vela acesa no segundo andar. Avistam-se sombras, não, é apenas uma pessoa. Como é que nunca se deu por ela? Parece que tem estado ali desde sempre…”


Dentro da casa reina a escuridão. Acendi uma vela, no quarto dos espelhos do segundo andar, mas tenho medo que alguém me veja. Este quarto está forrado a espelhos. Vejo o meu reflexo, sombras, a minha alma, o que me destrói e o que me constrói.

Vou-me arrastando a passos largos pelo quarto, sentindo-me só pela primeira vez desde que aqui estou. Fecho os olhos e penso em toda a minha vida, tento recordar-me dos momentos mais felizes.

E, ainda com os olhos fechados, sinto-me a partir um dos espelhos. Desfez-se em cacos. Apanho um deles e é lá que vejo o meu reflexo agora. Mas não é isto que sou. Pensando bem, não me sinto só. Não sinto rigorosamente nada. Estou oca. Preciso desesperadamente de sentir algo.

Encosto o pedaço de espelho partido ao pescoço. Não, não me parece que seja capaz. Encosto-o ao braço e abro os olhos. Olho para o chão, está pintado de vermelho.

E é então que me começo a sentir viva pela primeira vez em muito tempo, viva como o vermelho do sangue quente que me escorre pelas mãos.